Terça-feira, Maio 29, 2012

Guardando lugar...

Segunda-feira, Abril 30, 2012

"Biutiful", de Alejandro González-Iñarritu

O filme “Biutiful”, de Iñarritu, é uma metáfora do humano; é a história de Uxbal, um homem que carrega todas as injunções de um homem – é bom e mau; erra e acerta; tem medos e coragens; ama e odeia; acredita e duvida; tem dons e faltas; sabe e ignora; explora e é explorado; tem culpas e perdões; é doce e violento; se comove com a injustiça e é um elo da corrente interminável de explorações do homem pelo homem; manda e desmanda; é amado e odiado; é forte e vulnerável; foi ceifado pela morte, como todos foram ou serão...
Uxbal é, portanto, uma metonímia – um homem que simboliza todos os outros no percurso da confusa existência material. Sua história se passa numa Barcelona estranha, talvez porque é uma outra e periférica cidade, não a que nos acostumamos a achar bonita ou digna de cartões postais: prédios decadentes, guindastes, apartamentos aos pedaços, entulhados de coisas velhas, ruas e calçadas esburacadas, moradores de rua, camelôs... fazem do cenário uma favela, palavra que resume, mais ou menos, aquela tragédia social.
Logo nas primeiras cenas, somos informados de que Uxbal tem câncer e apenas dois meses de vida. E a narrativa é o retrato de seu desespero para ajeitar tudo antes de partir. Ele tem dois filhos, uma ex-esposa tão instável que não pode cuidar deles, um irmão que o trai e em cujos olhos nem consegue olhar e uma profissão que também é desestruturante: ele conecta duas pontas podres de atividades entre ilícitas e criminosas – entrega a imigrantes ilegais senegaleses CDs piratas e bolsas produzidas por imigrantes chineses também ilegais para serem vendidos nas calçadas, inicialmente, e, em seguida, agencia mão de obra escrava ou quase escrava (se é que se pode diferenciar os dois conceitos) para a construção civil. Tudo isso temperado com corrupção policial, uma pitada de tráfico de drogas e muita, muita injustiça. E muita, muita pobreza.
É claro que, na cegueira materialista em que vive, Uxbal pensa que juntar dinheiro é o que tem que ser feito, e suas ações nessa direção terminam por levá-lo ao fundo do pior abismo em que uma pessoa pode entrar. Sob o olhar atônito do espectador, o filme desenrola-se, de horror em horror, numa sequência crescente de conflitos, morte, assassinato, culminando num chacina inominável, perpetrada, direta ou indiretamente, por ele e que, por sua vez, se desdobra em mais e mais abjetas consequências.   
Acho que, de várias maneiras, “Biutiful” lembra “Coração das trevas”, de Joseph Conrad, e seu espelho, o filme “Apocalypse now”, de Francis Ford Coppola.
“Coração das trevas” é o melhor livro de Conrad. Publicado entre o final do século XIX e o começo do século XX, é uma narrativa, ambientada na África, que denuncia o engodo do Neocolonialismo europeu. Marlow, o narrador, mergulha nos meandros da selva do Congo e nas perversões mais profundas do projeto de exploração colonial, passando do enaltecimento da cruzada civilizatória inglesa para a verificação dos objetivos meramente econômicos e de dominação imperialista: exploração de fraquezas, trabalhos forçados, coerção, opressão, massacre, escravidão, desumanização, ruptura de laços sociais, preconceito... numa narrativa, ao mesmo tempo, imperialista e anti-imperialista.
“Apocalypse now”, de 1979, transporta esse enredo para a Guerra do Vietnã e troca os interesses coloniais pela luta pelo poder mundial. Menos sutil, Coppola descortina a vantagem do dominador e, portanto, a injustiça e a crueldade daquela invasão, que mudou para sempre nossas relações com as guerras.
Rio acima, as palavras de um ou as imagens do outro relatam uma cadeia de horrores, enganos, fraudes... A lentidão do relato é em si uma crueldade contra os leitores ou espectadores. Busca-se alguém que se degenerou em qualquer coisa, exceto um homem. Navegar, portanto, é como viajar no tempo e voltar ao selvagem que o ser humano já foi; é constatar a fragilidade da civilização...
Em “Biutiful”, as trevas transferem-se da periferia do mundo para o coração da Europa. Sem o rio, segue-se a trajetória do protagonista pelas ruas de uma cidade europeia – qualquer uma – onde ainda estão presentes os fantasmas do processo colonial, até porque eles estão dentro do homem, que os carrega consigo em todos os tempos e lugares.
Um lugar no fundo da selva ou os subterrâneos de uma cidade, na verdade, é a própria natureza humana, e o percurso que se faz é de corajosa prospecção ontológica; daí certa identificação espelhar: os narradores se identificam com o abominável ou é possível entender as trevas, que são apenas sugeridas. A selvageria não pertence apenas aos selvagens, mas a todos. E reside no interior, no porão.
O espectador de “Biutiful” entende e até perdoa Uxbal, pois reconhece que talvez fizesse o mesmo se fosse colocado na mesma situação.
Essa complacência inclui até o fato de que o personagem não segue as orientações de sua mentora, ou seja, a contemporaneidade é surda aos apelos do espírito. E segue, bruta, na gratificação sem limites dos desejos individuais e materiais, nas palavras do próprio Conrad.
Nas três histórias, porém, há uma narração invisível, quase – encarar tudo isso, de resto, resulta em autoconhecimento e só se transforma... entende... perdoa... ultrapassa... vence... sei lá... o que se conhece...
Aquela última imagem branca de neve e biutiful, que dá nome ao filme, é como sair da caverna; das sombras; dos porões imundos; do coração das trevas, não exteriores, como diz a Bíblia, mas interiores; das prisões da matéria e, enfim, seguir, com os nossos, em direção à paz e ao riso, deixando para trás essa cilada labiríntica que é a estadia material.

Domingo, Março 25, 2012

Retratos

Tenho medo
de olhar
a cilada muda
dos retratos.

O tempo parado
enche tudo
de estátuas.

Não há ventos,
nem vida.

Só o instante
plástico e inconjugável,
encarcerado
na folha de papel...


Tempo

Quatro olhos
miram-se
no espelho
do meu quarto.

Aquele vidro
não guarda
o que passou.

Há mais em mim,
além deste rosto
sazonado
que me anuncia
aonde eu vou.

O passado
é que esculpiu
não só este perfil
mas este ser
exclusivo.


Passado

A árvore
é recidiva
da vida.

Seu esplendor
indizível
de tanta verde
surpresa;
sua seiva calada
que guarda
uma senha secreta;
a frescura do
milagre que sua
sombra
resume...

Estava tudo previsto
na semente,
ponto minúsculo
e improvável!


Presente

A árvore,
mesmo devagar,
faz certo esforço
vital:
rompe
o sono da semente;
vence
a força da terra;
estende
o vigor do seu tronco;
espalha
a beleza das folhas;
opera
a prospecção das raízes.

Além da semente,
é a ação
que empreende
para fazer-se
o que é.


Futuro

O presente
é o código
do corpo,
um intervalo
de mistérios...

E o amor
é um triz
do futuro
em gesto,
pensado
duplamente
e inaugurado
na beira
do abismo
do sentido.

Quarta-feira, Fevereiro 29, 2012

Meia espera

Estou exausta
de minha esperança.

Mesmo assim,
posso continuar
esperando,
como sempre.

Mas o que quero
mesmo
é aderir
ao presente
sem saudade
nem expectativa.

Terça-feira, Janeiro 31, 2012

É cada começo de ano...

Trabalhei pesado em 2011. E, claro, aguardava ansiosa as férias e aquela esperançazinha de melhora que sempre nos acomete no princípio de cada ano. Mas que, às vezes, falha.
E, como herdei a cultura familiar de rir de tragédias, concordando com o ditado popular o qual diz que "o trágico anda de mãos dadas com o cômico", começo o ano rindo de acidentes.
Ganhei de meu cunhado um "tupperware" com requeijão. Quando me entregou o presente, mangando de uma conhecida idosa de nossa família, ele disse:
− Devolva logo o depósito, que eu preciso muito dele.
A história dessa conhecida está no rol de "absurdos psicológicos" de nossa família. É que, quando meu filho Filipe estava no hospital, entre a vida e a morte, ela mandava bolo lá para casa e depois cobrava a vasilha de volta. Ora, eu estava no hospital, não conseguia dar conta nem do meu dia a dia e, além do mais, a vasilha era de sorvete! Naquela situação, tudo isso passava da conta e, apesar de considerarmos o fato delicado de ela enviar o bolo, sempre fazíamos (e fazemos) piada com o episódio.
Querendo potencializar a piada, assim que cheguei em casa, troquei o requeijão de vasilha e corri para devolvê-la.
Estava tão apressada que não tive paciência para esperar o elevador. “É só um andar, pensei, vou pela escada!”. E lá fui eu, aloprada!
Abri a porta de incêndio e... o sensor da luz da escada não acendeu. “Não faz mal, avaliei, vou tão depressa que ainda aproveitarei a réstia da luz do hall”... Mas a porta de ferro fechou-se. E o escuro mais profundo abateu-se sobre mim.
Eu estava embalada; ainda levada pelo meu otimismo incurável, achei que tinha chegado ao descanso da escada... Mas havia um último e fatídico degrau... Rodopiei... e caí sentada de frente para os batentes que eu tinha acabado de descer, alvoroçada.
Uma dor lancinante me deu vontade de desmaiar. Mas fui forte e chamei meu filho.
Ele ouviu lá loooonge um fio de voz e, apesar de umas dores abdominais que estava sentindo, levantou-me, dizendo:
− Ôxe, mãe, ′tás ralada por causa dessa parede crespenta?
− Muito não, só um pouquinho, respondi, mancando.
E vim me deitar no sofá, depois de pegar gelo no “freezer” para botar nos dois pés, que me doíam demais. Quando a dor aliviou um pouco, voltei à escada, peguei o depósito do chão, heroica e dificilmente, desci o resto da escada e fui entregá-lo à minha irmã.
Eu não queria que ela soubesse que, provavelmente, eu quebrara o pé; ela e toda a sua família iam para o Mato Grosso, de férias, e a viagem poderia perder um pouco da graça se adivinhassem a tragédia. Munida de toda a coragem que pude reunir, toquei sua campainha e, ao mesmo tempo, apertei o botão do elevador, que logo chegou. Ela abriu a porta, na expectativa da piada.
− Seu depósito, disse-lhe, entregando-o.
Notei que ela ficou meio desarmada, mas não puxei conversa. Eu tinha que andar sem mancar até a porta do elevador, e isso exigia de mim toda a teatralidade necessária para a ocasião. Ainda pude, de longe, escutar meu cunhado:
− Foi Flávia? O que ela disse?
− Nada, minha irmã, frustrada, respondeu.
Voltei para casa, tomei um banho e fui para cama dormir. A noite foi um pesadelo de dor, cada vez que me virava, acordava, os pés latejando...
No dia seguinte, quando botei os pés no chão, pensei: “Meu Deus! Preciso de um médico!” Andei, como pude, até o interfone da cozinha e liguei para a minha outra irmã – a famosíssima Deb, diretora do Departamento de Digitação e Marketing deste blog.
− Deb, disse-lhe, acho que quebrei os dois pés.
− Menina, te deixei ontem, às 9 da noite, boazinha, na tua casa!
Apesar do espanto, ela acudiu-me depressa. Fomos a uma clínica, lá bateram uma radiografia, e o médico me disse que não havia fratura, que eu comprasse anti-inflamatórios e fizesse repouso. Entregou-me uma bota de velcro. Passamos na farmácia. O remédio prescrito custou R$ 35,00 (o genérico; o outro, de marca, era o dobro).
Como nada de grave tinha acontecido, fomos direto à casa da outra irmã que, por acaso, estava, antes de viajar, limpando os armários da cozinha, os quais tinham sido restaurados pelo marceneiro. E eu e Deb visualizamos a primeira parte do absurdo kafkaniano em que estávamos: nunca tínhamos visto uma quantidade tão grande de “tupperwares” na nossa vida. A segunda parte era que com R$ 35,00 se podia comprar quase a mesma quantidade de depósitos.
Moral da história: escada é um troço perigoso; falar de idosos atrasa; nada está tão ruim que não possa piorar (digo isso porque, no mesmo dia da minha ida ao ortopedista, meu filho operou-se de uma hérnia encarcerada!); meu otimismo precisa de um choque de realidade; irmão é um troço difícil de qualificar...

A meus filhos Diogo (que está se recuperando bem), Filipe (que estava com o pai, para que eu quebrasse o pé mais sossegadamente) e Daniel (que, com uma metáfora recifense, descreveu minha família como uma corda de caranguejos) e a todos os sobrinhos, para que aprendam conosco a conviver e sobreviver, apesar dos impasses, das diferenças e dos sustos.

P.S. Em sua crônica “Rei de alguma coisa”, de 21 de novembro de 2011, meu amigo Samarone (www.estuario.com.br) autocoroou-se “rei do tupperware”, em virtude do fato de sempre pedir, num tupperware, é claro, um pouco mais da comida da qual acabou de se servir. De acordo com ele, isso garante outra refeição e agrada à cozinheira. Por outro motivo – quase morri por um tupperware de R$ 1,99, como se pôde constatar – peço licença a Samarone para ganhar o título de “rainha do tupperware”. Agora, tudo depende da anuência dele; afinal, rei é rei...          

Sábado, Dezembro 31, 2011

O aniversário de Clarice Lispector

− Dez  de   dezembro   é   o  aniversário  de  Clarice  Lispector,  disse-me  André  Resende,  há  cerca  de  três semanas.
Nós acabáramos de dar uma palestra juntos, com Lula Couto como mediador. E tínhamos, se bem me lembro, discordado em tudo. Eu falara das funções da literatura e de como os jovens não podem perder o contato com as narrativas, digamos assim, míticas de uma cultura. André Resende, com um jeito tímido e pouco didático, tinha denunciado a falta de um projeto de formação de leitores nas escolas do Recife e falado sobre como a literatura é sempre para muito poucos.
Houve um curto circuito na minha cabeça. Primeiro, porque dez de dezembro é o aniversário de meu pai; depois, porque me lembrei do século XIX, o tempo de ouro da literatura, de Victor Hugo, de Tolstói, autor que mais me ensinou até hoje, e de como os escritores, nesse momento, faziam as vezes de voz muda da consciência de um povo.
André continuou falando:
− O filho de Clarice Lispector, Paulo Gurgel, queria instituir “A hora de Clarice”, um projeto de atenção à obra dela, todo dia dez de dezembro. Vocês topavam levar isso adiante comigo, aqui na Livraria Jaqueira?
Eu e Lula topamos. Na verdade, atenção a escritores é a minha missão, eu não podia “amarelar”, como dizem meus alunos. Começamos devagar a organizar tudo, com os limites dos nossos temperamentos. Iara, uma fada lá da livraria, também assumiu conosco o compromisso.
Combinamos que as pessoas passariam e-mails para mim dizendo que conto ou crônica gostariam de ler. Pois havia uma hora inteira de leitura de textos de Clarice Lispector de manhã e duas horas à tarde, afora outras atividades: na “hora do conto”, evento de muito sucesso da Livraria Jaqueira, a contadora de histórias infantis iria narrar histórias de Clarice; os encontros mensais da União Brasileira de Escritores (UBE) e das “Frentes da Psicanálise” reservariam suas pautas para Clarice e sua obra.
Ao longo da semana anterior ao aniversário, principalmente, a lista virou uma sanfona – crescia, diminuía, as pessoas pediam para eu escolher, eu respondia que cada um escolheria o texto de sua preferência, elas escolhiam, desistiam, escolhiam outro texto... e-mail para lá, e-mail para cá...
Certas pessoas amam alguns textos de Clarice Lispector, queriam ler “aquele” conto, lamentavam quando ele já tinha sido escolhido, apontavam outro a contragosto. Eu tinha que ter cuidado, pois o caso de amor das pessoas com Clarice é poderoso; elas se identificam com as personagens, emocionam-se, conhecem as histórias, dizem que gostam dos lugares que ela refere, visitam-nos, tiram retratos, falam da praça onde ela morou, da fonte da praça, da escola onde estudou...
Há uma espécie de triangulação inexplicável entre a cidade do Recife, seus habitantes e Clarice, a qual não é de lugar nenhum, mas o canto a que mais pertencia era o Recife, como bem dizia. A cidade do Brasil que mais vende livro de Clarice é Recife, quem gosta de livros adora “Felicidade clandestina”, aliás, o livro inteiro é amado pelos recifenses; as crônicas, por seu turno, trazem-na ainda mais para perto de nós – ela nos fala de suas empregadas domésticas, de suas dificuldades financeiras, de seus amigos, de seus filhos adorados... e do Recife, a cidade de sua infância, esse momento que imprime em nós o que seremos.
Nós, recifenses, intuímos isso de uma forma não explícita, sabemos como nossa cidade faz parte daquilo que Clarice é e, em silêncio, gostamos disso, até nos orgulhamos disso, de um jeito reservado, como só os pernambucanos fazem. Como Clarice faz. Há uma rota de entendimento calado entre nós...
Chega o sábado, dez de dezembro, depois de algumas reuniões e e-mails. De manhã, tivemos um pequeno atraso, lemos alguns contos... As energias estavam ainda desarrumadas, as coisas correram apenas bem. Minha lista começou a dar errado.
Aí Clarice começou a agir. Fez André desistir de sua timidez e resolver ser o mestre de cerimônia durante a tarde e a lista começou a funcionar, não de forma objetiva, mas ao sabor dos ventos e do acaso. E tudo se encaixou.
Começamos a chorar juntos enquanto líamos, a rir juntos, a olhar um para o outro e saber o que queríamos dizer, o que o outro pensava ou sentia. As palavras de Clarice abriam caminhos entre nós, nossos corações começaram a bater no compasso do dela e nos entendemos, nos emocionamos juntos e falamos por ela, com ela, sobre ela e, ao mesmo tempo, sentíamos que ela falava conosco e nós nos sentíamos traduzidos, tocados, felizes...
Não deu tempo de todos lerem, mas ninguém se importou... Estávamos plenos de compreensão do outro, de nós mesmos... A plateia sentia essa sensação de alguma forma, havia uma coisa boa no ar...
Chegou a hora da palestra dos psicanalistas, que trouxeram mais compreensão, mais reflexão... As perguntas, depois da explanação, foram ótimas, os adolescentes presentes não ficaram inibidos e enunciaram perguntas, dúvidas, fizeram colocações...
Eu sei que somos uma babel. Não conseguimos nos entender, não porque falamos línguas diferentes, mas porque não somos tolerantes o suficiente com o outro e sua idiossincrasia. Muros, guerras, bombas, cercas, armas e seus conseguintes desastres traduzem nossas imperfeições, nossos defeitos, nossas impossibilidades, nossas incapacidades de conviver em harmonia. Eu sei.
Entretanto, no dia do aniversário de Clarice, lá na Livraria Jaqueira, vencemos essa torre. E conseguimos entender, perdoar, relevar, improvisar, fluir, falar, ouvir... ser!
É claro que havia a senha de Clarice, seus textos francos, sofridos, suados, molhados de lágrimas... humanos, enfim. E, através dela, nos aproximamos, sem medo uns dos outros.
O mundo é uma noite numa trincheira... mas, às vezes, num instante, compreendemos que Platão tinha razão e que, portanto, é possível haver um mundo diferente, habitado por pessoas melhores, que confraternizam e são felizes na sua trajetória. E que a arte é um código de acesso a esse mundo para o qual rumamos, inevitavelmente.
Não estamos seguindo na mesma velocidade, é certo; às vezes, nos perdemos pelo caminho. Mas o aniversário de Clarice é a prova: venceremos!

A Paulo Gurgel, André Resende e Clarice Lispector, que, de jeitos diferentes, me proporcionaram um dia bom!

Terça-feira, Novembro 29, 2011

Última espera?

Pergunto
à noite
por que demoras...

Ela responde
com o rugido
do trânsito.

Nem parece noite:
cada janela
cancela
a treva...

Mas é noite!
E, dentro dela,
cato teu rosto.

Tua palavra
mansa
será a minha bússola...