quarta-feira, julho 08, 2015

Guardando lugar no mês de julho...

sábado, junho 06, 2015

Guardando lugar no mês de junho...

sexta-feira, maio 08, 2015

Os noivos

Amor: tudo passa
por teu perigo –
Cada história,
em teu nome,
se refaz
igual e diferente.

Sorrateiro, repetes o bote
e surpreendes inocentes:
a partir do teu veneno
pensam ver o sol
na noite densa.

Um hermético efeito
começa, então,
a se exalar:
todo defeito
parece graça
e consertável...

E, vergadas ao peso
do teu sopro,
as vítimas armadilham-se
sem escolha.

Tua dose nem os
priva de errar,
nem basta para
impedi-los de acertar...

Na beira do abismo,
há em cada dois
a hipótese perfeita!

quinta-feira, abril 09, 2015

Mais outra mudança

Sei de tua vida (a Flávia Suassuna)
Sei de tua vida, 
Conheço a tua trilha,
acompanho teu andar.
Não levas uma cruz,
Teu fardo é de amor.
Sentimento de ternura
não tem peso,
só tem dor.
Teu passo é seguro,
seguras com pulso forte
e nos olhos marejando
águas sabor de mar,
muitas vidas vais levando
para o alto, vais chegando
que o fio do teu prumo
só Deus sabe onde está.
(Melquíades Montenegro Filho)

            Passei os últimos vinte anos trabalhando ao lado de Vicente Santos num curso de ensino de língua portuguesa para o vestibular, muito conhecido no Recife, chamado “Vicente & Flávia”. Foi uma longa e exitosa parceria que, infelizmente, se desfez no final do ano passado, por diversos motivos desimportantes – que não vale a pena mencionar – e importantes. O mais importante e que merece reflexão é este: o mundo, de repente, muda.
            De imediato, não fui capaz de escrever sobre o impacto que o fim dessa sociedade causou na minha pessoa; “fico muda quando mudo” é a frase que uso para pedir um tempo de silêncio aos que me cercam e amam. Acho que foi a Páscoa que me deu força suficiente para o esforço de escrever para compreender, o que constitui uma de minhas tarefas na vida.   
Essas reflexões não têm nada a ver com o lugar no qual estou “instalada” agora – ao lado de outro grande amigo, Fernando Beltrão, que me acolheu neste momento difícil, como sempre costuma fazer. Têm a ver com o que o jornalista americano Calvin Trillin já mencionou no seu livro Sobre Alice: um escritor tem o instinto de analisar e tentar encontrar sentido nos fatos grandes e pequenos que nos “atropelam” durante a vida.
Sobre Alice é uma linda declaração de amor que o autor escreveu sobre a sua esposa Alice Stewart Trillin, que morreu antes dele, de problemas cardíacos decorrentes de um tratamento de câncer de pulmão a que ela tinha se submetido 25 anos antes. Alice venceu o câncer (morreu, muito tempo depois, da cura e não da doença em si), e a recuperação lhe rendeu a chance de ver o casamento de suas duas filhas e de ajudar muitos médicos e doentes a entenderem o que se passa com os pacientes em tratamento, por meio de palestras e de um famoso depoimento escrito chamado “Sobre dragões e ervilhas – uma paciente de câncer conversa com médicos”.
De acordo com Alice, os dragões do título eram uma metáfora para o fato de que a doença era um monstro difícil de matar e podia ficar à espreita e despertar quando menos se esperava; as ervilhas, outra metáfora para as coisas que, a despeito do que se pode antever antes de adoecer, têm que continuar iguais, como ir à feira, pagar as contas, perder entes queridos, manter, minimamente, a própria identidade...
O câncer foi, na história de Alice, o que ela mesma chamava de “concretização de nossos piores pesadelos”, isto é, às vezes somos surpreendidos por acontecimentos incompreensíveis, de tão brutais. O que fazemos do episódio e de nós mesmos depois faz muita, muita diferença.
Comecei a entender isso durante uma palestra sobre Clarice Lispector proferida por um psicanalista que me surpreendeu quando finalizou sua fala, dizendo:
– A vida é uma merda. O que a gente faz com a merda é o que constitui a diferença...
A compreensão disso torna cada um de nós ainda mais responsável pelos outros: precisamos continuar fazendo esforços para conviver em harmonia, pois o episódio, por bruto que seja, não traz com ele passes de desculpas, nem justificativas para eventuais descortesias que possamos cometer daí para frente. As pessoas, simplesmente, não têm nada a ver com o fato, nem podem ser depositárias de nossa revolta com o lotérico caso que ocorreu na “nossa” vida e não na “delas”. E mais: não querem ficar ouvindo lamúrias... E mais: algumas são incapazes de, minimamente, entender o que aconteceu... E mais: outras acham que, se aconteceu conosco, azar o nosso... E mais: algumas não pensam sobre essas coisas, só vivem... Um pouco calados, temos que seguir em frente com essa razão (como chama a matemática) invisível que potencializa as coisas da vida...
É claro que estou aqui escrevendo não por causa da mudança de lugar de trabalho por que passei recentemente, que isso não é digno de tanto lero-lero. Mas o que acontece comigo é que essas mudanças pequenas despertam a lembrança da “concretização de meu pior pesadelo” – a doença neurológica gravíssima de meu filho do meio, que o transformou e a mim mesma em pessoas completamente diferentes... E, sim, há as dificuldades mesmas da vida que não param e se somam, cotidianamente, ao acontecimento, numa equação com muitas incógnitas... E muitas lágrimas... Se pais têm medo de morrer e deixar os filhos, o meu medo é maior; se pais temem adoecer quando seus filhos são ainda dependentes, o meu temor é maior; se pais acham difícil sustentar seus filhos, minha dificuldade é maior; se pais acham penoso contratar cuidadoras e babás, a minha pena é maior...
Não há muito o que fazer depois que um fato desses se instala nas nossas vidas: às vezes, temos que apenas suportar enquanto ele passa, como no caso de Alice; às vezes, temos que aprender a viver com suas intermitências, como acontece nas recidivas antes da cura final; às vezes, ele não passa nunca, como no caso de meu filho, que carrega, desde a fase aguda de sua infecção, há quase 15 anos, sequelas irremediáveis muito limitantes.
E não há consolo, apesar de muitas pessoas terem umas ideias prontas que as blindam desse “ruído surdo de terror que permeia tudo”, nas palavras de Ernest Becker: algumas pensam que Deus não enviaria um fardo desses para elas, pois Ele sabe que elas não suportariam; outras, que dizer a uma pessoa que outras têm problemas maiores que os dela é suficiente; outras, que Deus manda o fardo e o “como” carregá-lo; outras pensam que se matariam, cometendo, a meu ver, três covardias – uma contra si, outra contra o filho dependente e a terceira contra o próprio Deus; outras passam a vida inteira sem pensar nessas coisas difíceis, achando que a vida é uma passagem festiva e sem problemas e que só algumas pessoas fazem confusão, porque são confusas, como eu, conforme me disse, recentemente, um aluno meu. E ainda acrescentou:
– Viemos ao mundo para comprar!
Eu lhe disse que Deus não teria uma ideia idiota como essa, e até hoje não sei se ele pensa mesmo isso, ou se eu lhe disse alguma coisa que o tocou tanto que ele defendeu-se com essa “pérola” materialista... Fica a questão... 
Não sei direito como terminar este texto triste, cheio de reticências e sem respostas... Sei que minha vida, sem ser feliz, é alegre... sei que meu filho me deu o privilégio de ser cada dia mais humana... sei que gosto da pessoa que me tornei... e da pessoa que ele se tornou... sei que tenho medo... Nossa vida não é um mar de rosas, qualquer onda me faz temer a tempestade, mas aprendi a segurar o leme com força. E ele é tudo. Às vezes, o mesmo vento leva dois barcos que seguem destinos diferentes...

A Melquíades, em agradecimento pelo poema.

terça-feira, março 10, 2015

A GARRAFA

Nenhum sol
a rebrilha?

Para que se a
veja, afinal?

Sua batida
nas ondas
(como a do meu
coração)

Marca  a hora
maldita:
vida metade
esperada,
vida metade
perdida...

segunda-feira, fevereiro 02, 2015

PALAVRA PRESA

Guardada
na garrafa
do mar,
aquela senha
liga-se
ao perfume
de alguém...

quinta-feira, janeiro 22, 2015

SOLIDÃO TEIMOSA

Ninguém achou
a garrafa...

Ela navega
semiafogada
e perdida
na imensidão
do oceano.

Lá nela
se guarda
meu pedido secreto...