sexta-feira, maio 08, 2015

Guardando lugar no mês de maio...

quinta-feira, abril 09, 2015

Mais outra mudança

Sei de tua vida (a Flávia Suassuna)
Sei de tua vida, 
Conheço a tua trilha,
acompanho teu andar.
Não levas uma cruz,
Teu fardo é de amor.
Sentimento de ternura
não tem peso,
só tem dor.
Teu passo é seguro,
seguras com pulso forte
e nos olhos marejando
águas sabor de mar,
muitas vidas vais levando
para o alto, vais chegando
que o fio do teu prumo
só Deus sabe onde está.
(Melquíades Montenegro Filho)

            Passei os últimos vinte anos trabalhando ao lado de Vicente Santos num curso de ensino de língua portuguesa para o vestibular, muito conhecido no Recife, chamado “Vicente & Flávia”. Foi uma longa e exitosa parceria que, infelizmente, se desfez no final do ano passado, por diversos motivos desimportantes – que não vale a pena mencionar – e importantes. O mais importante e que merece reflexão é este: o mundo, de repente, muda.
            De imediato, não fui capaz de escrever sobre o impacto que o fim dessa sociedade causou na minha pessoa; “fico muda quando mudo” é a frase que uso para pedir um tempo de silêncio aos que me cercam e amam. Acho que foi a Páscoa que me deu força suficiente para o esforço de escrever para compreender, o que constitui uma de minhas tarefas na vida.   
Essas reflexões não têm nada a ver com o lugar no qual estou “instalada” agora – ao lado de outro grande amigo, Fernando Beltrão, que me acolheu neste momento difícil, como sempre costuma fazer. Têm a ver com o que o jornalista americano Calvin Trillin já mencionou no seu livro Sobre Alice: um escritor tem o instinto de analisar e tentar encontrar sentido nos fatos grandes e pequenos que nos “atropelam” durante a vida.
Sobre Alice é uma linda declaração de amor que o autor escreveu sobre a sua esposa Alice Stewart Trillin, que morreu antes dele, de problemas cardíacos decorrentes de um tratamento de câncer de pulmão a que ela tinha se submetido 25 anos antes. Alice venceu o câncer (morreu, muito tempo depois, da cura e não da doença em si), e a recuperação lhe rendeu a chance de ver o casamento de suas duas filhas e de ajudar muitos médicos e doentes a entenderem o que se passa com os pacientes em tratamento, por meio de palestras e de um famoso depoimento escrito chamado “Sobre dragões e ervilhas – uma paciente de câncer conversa com médicos”.
De acordo com Alice, os dragões do título eram uma metáfora para o fato de que a doença era um monstro difícil de matar e podia ficar à espreita e despertar quando menos se esperava; as ervilhas, outra metáfora para as coisas que, a despeito do que se pode antever antes de adoecer, têm que continuar iguais, como ir à feira, pagar as contas, perder entes queridos, manter, minimamente, a própria identidade...
O câncer foi, na história de Alice, o que ela mesma chamava de “concretização de nossos piores pesadelos”, isto é, às vezes somos surpreendidos por acontecimentos incompreensíveis, de tão brutais. O que fazemos do episódio e de nós mesmos depois faz muita, muita diferença.
Comecei a entender isso durante uma palestra sobre Clarice Lispector proferida por um psicanalista que me surpreendeu quando finalizou sua fala, dizendo:
– A vida é uma merda. O que a gente faz com a merda é o que constitui a diferença...
A compreensão disso torna cada um de nós ainda mais responsável pelos outros: precisamos continuar fazendo esforços para conviver em harmonia, pois o episódio, por bruto que seja, não traz com ele passes de desculpas, nem justificativas para eventuais descortesias que possamos cometer daí para frente. As pessoas, simplesmente, não têm nada a ver com o fato, nem podem ser depositárias de nossa revolta com o lotérico caso que ocorreu na “nossa” vida e não na “delas”. E mais: não querem ficar ouvindo lamúrias... E mais: algumas são incapazes de, minimamente, entender o que aconteceu... E mais: outras acham que, se aconteceu conosco, azar o nosso... E mais: algumas não pensam sobre essas coisas, só vivem... Um pouco calados, temos que seguir em frente com essa razão (como chama a matemática) invisível que potencializa as coisas da vida...
É claro que estou aqui escrevendo não por causa da mudança de lugar de trabalho por que passei recentemente, que isso não é digno de tanto lero-lero. Mas o que acontece comigo é que essas mudanças pequenas despertam a lembrança da “concretização de meu pior pesadelo” – a doença neurológica gravíssima de meu filho do meio, que o transformou e a mim mesma em pessoas completamente diferentes... E, sim, há as dificuldades mesmas da vida que não param e se somam, cotidianamente, ao acontecimento, numa equação com muitas incógnitas... E muitas lágrimas... Se pais têm medo de morrer e deixar os filhos, o meu medo é maior; se pais temem adoecer quando seus filhos são ainda dependentes, o meu temor é maior; se pais acham difícil sustentar seus filhos, minha dificuldade é maior; se pais acham penoso contratar cuidadoras e babás, a minha pena é maior...
Não há muito o que fazer depois que um fato desses se instala nas nossas vidas: às vezes, temos que apenas suportar enquanto ele passa, como no caso de Alice; às vezes, temos que aprender a viver com suas intermitências, como acontece nas recidivas antes da cura final; às vezes, ele não passa nunca, como no caso de meu filho, que carrega, desde a fase aguda de sua infecção, há quase 15 anos, sequelas irremediáveis muito limitantes.
E não há consolo, apesar de muitas pessoas terem umas ideias prontas que as blindam desse “ruído surdo de terror que permeia tudo”, nas palavras de Ernest Becker: algumas pensam que Deus não enviaria um fardo desses para elas, pois Ele sabe que elas não suportariam; outras, que dizer a uma pessoa que outras têm problemas maiores que os dela é suficiente; outras, que Deus manda o fardo e o “como” carregá-lo; outras pensam que se matariam, cometendo, a meu ver, três covardias – uma contra si, outra contra o filho dependente e a terceira contra o próprio Deus; outras passam a vida inteira sem pensar nessas coisas difíceis, achando que a vida é uma passagem festiva e sem problemas e que só algumas pessoas fazem confusão, porque são confusas, como eu, conforme me disse, recentemente, um aluno meu. E ainda acrescentou:
– Viemos ao mundo para comprar!
Eu lhe disse que Deus não teria uma ideia idiota como essa, e até hoje não sei se ele pensa mesmo isso, ou se eu lhe disse alguma coisa que o tocou tanto que ele defendeu-se com essa “pérola” materialista... Fica a questão... 
Não sei direito como terminar este texto triste, cheio de reticências e sem respostas... Sei que minha vida, sem ser feliz, é alegre... sei que meu filho me deu o privilégio de ser cada dia mais humana... sei que gosto da pessoa que me tornei... e da pessoa que ele se tornou... sei que tenho medo... Nossa vida não é um mar de rosas, qualquer onda me faz temer a tempestade, mas aprendi a segurar o leme com força. E ele é tudo. Às vezes, o mesmo vento leva dois barcos que seguem destinos diferentes...

A Melquíades, em agradecimento pelo poema.

terça-feira, março 10, 2015

A GARRAFA

Nenhum sol
a rebrilha?

Para que se a
veja, afinal?

Sua batida
nas ondas
(como a do meu
coração)

Marca  a hora
maldita:
vida metade
esperada,
vida metade
perdida...

segunda-feira, fevereiro 02, 2015

PALAVRA PRESA

Guardada
na garrafa
do mar,
aquela senha
liga-se
ao perfume
de alguém...

quinta-feira, janeiro 22, 2015

SOLIDÃO TEIMOSA

Ninguém achou
a garrafa...

Ela navega
semiafogada
e perdida
na imensidão
do oceano.

Lá nela
se guarda
meu pedido secreto...

terça-feira, dezembro 02, 2014

Aos nossos alunos - 4

Todo ano me traz uma turma nova, e isso sempre me renovou: novos sonhos, novas esperanças costumavam amanhecer em mim forças e coragens que eu nem sabia que tinha. Há tanto tempo sou professora, que sabia de cor o que acontecia: inicialmente, meus alunos me estranhavam, achavam que eu era meio “louca”, depois começavam a chegar bilhetinhos, conversas, até choros, e engrenava um amor lindo entre mim e eles, desses que merecem uma palavra ou um abraço, quando há um encontro na rua, no banco, no supermercado, ou no consultório de um médico qualquer.
Tantos ex-alunos referiam como fui marcante para eles... E isso sempre foi um sentido na minha vida, uma força extra de que eu lançava mão quando me sentia cansada.
Devagar e depressa, essa sequência de gerações foi se fazendo uma corrente do bem – eu falava, era compreendida (não por todos, é claro; mas pela maioria) e minhas palavras tinham um tempero de valor que servia de referência ou ponto de partida. Isso tudo multiplicado pelo número de alunos que tive desaguava numa felicidade mansa que morava em mim e que me dava uma certeza clara de que tudo dava certo no final.
Mas essa corrente do bem foi enfraquecendo, sem que eu sentisse de imediato, e, nesse ano de 2014, ela por fim foi quebrada.
Comecei a ouvir que eu precisava “falar a língua do meu aluno”, que era preciso “dizer o que o aluno quer escutar”. Eu nunca tinha me preocupado com isso, sempre me ocupei de falar aquilo que eu achava que devia dizer, ou aquilo que meu aluno precisava ouvir; essa era minha responsabilidade, inclusive; fazia parte da tarefa de educar. Nunca medi palavras para dizer: “não está bom”, “precisa melhorar”, “foi insuficiente”, “está apenas regular”. Não sei precisar quando essa nova realidade se inaugurou. Meu coração está aqui dizendo que talvez tenha sido a partir de 2010, talvez, não sei ao certo...
Devagar e de repente, meu aluno começou a querer atalhos, a desejar aprender só o pedaço, como se o aprendizado e a compreensão de si e do mundo viessem por aí, como se fosse possível melhorar uma nota sem melhorar como pessoa... O ato de escrever deixou de ser uma autoexpressão para ser aquilo que o avaliador quer ouvir ou uma busca por meios que o enganem.
Nada é subjetivamente construído, o aluno quer receber tudo pronto, e a interdisciplinaridade passou a parecer uma piada de mau gosto. A aula de literatura virou um estorvo, e escrever, apenas uma estratégia de preenchimento de linhas.
As filas de empréstimos de livros na biblioteca minguaram, e os alunos agora acham que vão se safar sem saber ler e escrever de verdade, competências sociais que continuam imprescindíveis à inserção política e social, ou ferramentas para quem quer fazer a diferença, como se diz por aí.
Recentemente, recebi um texto muito triste de uma amiga o qual dizia que o mundo a que pertencemos morre antes de nós. Não quero crer que é isso que está acontecendo comigo, seria admitir que não vale a pena estar viva. Nem é isso assunto para se falar a jovens que estão apenas no começo de sua caminhada. Quero crer que estamos atravessando uma fase apenas que, do jeito como começou, vá passando, passando, até desaparecer. E que chegará de novo a fé no esforço certo.
Outro dia, quando denunciei que há vários tipos de introdução aceitáveis numa dissertação argumentativa, um aluno retrucou:
Diga logo a que serve para todos os textos!
Danou-se, eu pensei. E não pude conter o pensamento que levantou várias hipóteses: a de que esse aluno sempre aborda suas pretendentes de uma só forma, a de que ele usa apenas uma posição quando faz sexo, a de que ele sempre pede o mesmo prato no restaurante, a de que ele admite apenas uma forma de “certo”... E achei que ele caiu na armadilha da simplificação e da uniformização, perdendo o melhor da vida, das relações e das pessoas.
Pois elas são únicas, difíceis por serem únicas, surpreendentes e, por isso, ricas de si mesmas. Delas nascem textos múltiplos, diferentes, autorais (como nós, professoras de redação, os chamamos). E essa diversidade é uma nova lei, a lei da tolerância, a utopia da diferença que tanto lutamos para implantar.
              O que está acontecendo com vocês, alunos, que desistiram do caminho próprio, da roupa com personalidade, da escolha exclusiva, da construção subjetiva de sentidos? Onde já se viu aceitar por inteiro as ordens televisivas, partidárias, publicitárias, midiáticas?
              A vida não é uma tarefa fácil, ninguém vem de férias, todos têm que trabalhar muito e colecionar mais perdas que ganhos. Seu professor não chegou a sua vida para dizer-lhe o que você quer ouvir; ele está aí para mostrar rotas de melhora, para avisar que você está errado quando você está errado (e certo quando o caso é inverso). E “educação” não é formar e conduzir rebanhos. É fazer pessoas. Pessoas críticas. Capazes, inclusive, de analisar o professor e avaliá-lo com justiça.
              Por isso estou aqui hoje pedindo atenção. Atenção ao falso líder que só quer seguidores calados; atenção ao falso professor que não ensina a pensar e a seguir caminhos próprios, mas a burlar examinadores, por meio de atalhos; que diz que vai ensinar você a fazer uma prova. Atente para o fato de que você, devagar, tem que criar competências para a sua vida inteira. Uma escola, uma faculdade, uma universidade não são espaços onde você aprende a enganar e a fazer provas, mas onde você aprende a ser um sujeito capaz de escrever sua própria história.
              Eu poderia aqui ter dito que todos os sonhos de vocês se realizarão e que vocês serão felizes. Mas parece que faço o contrário: pernambucanamente, enfatizei o suor obrigatório no plantio e mesmo na colheita da cana para que, na sequência, vocês possam ter o açúcar.
              É claro que quero que vocês sejam felizes e que seus sonhos se realizem. Mas o que quero mais é vê-los autônomos, donos de si próprios, seguindo trilhas criativas e, portanto, tolerando a escolha diversa do outro. O que quero mais é vê-los enfrentar com originalidade os dilemas e desafios da vida, deixando marcas por onde passarem.

A Andressa, Douglas, Eduarda, Giovana, Rilk e Sérgio, metonímias dos meus alunos de 2014, dos quais tive que me despedir.

segunda-feira, novembro 17, 2014

PERSISTÊNCIA

O mar e o rio
não se cansam.

Como a vida,
vêm de um mistério
vão para outro...

A mágica
das águas
todo dia
acontece:
o rio é água
que não volta,
nem acaba;
o mar vai
e regressa
amarrado
às marés...

Como a vida,
o rio é
travessia
comprida;
o mar
não pode
desistir...

O resumo
das águas:
sou toda feita
dessa líquida
força!