sexta-feira, março 11, 2016

Nosso tempo

Quando estou muito confusa e minhas ideias não conseguem dar conta dos fatos em redor, eu costumo pegar meu “Grande sertão: veredas”. Passeio por ele, lendo o que grifei, releio trechos, passo um tempo com o sábio João Guimarães Rosa... E isso me ajuda a entender e a saber o que tenho que fazer daí para frente.Esta semana, minha pressão subiu, passei uns dias fora do meu prumo e, então, peguei o livro, como faço sempre...
Ele me lembra de uma coisa que está muito esquecida, país afora: a nossa complexidade inominável. O jagunço Riobaldo (cangaceiro, aqui, diríamos), num monólogo ininterrupto, fala a um interlocutor que o escuta atentamente. E o que é essa narração?
         De início, um espelhamento de “Os sertões”, de Euclides da Cunha, já que ambos falam do sertão. Mas Rosa obriga a classe dominante a ouvir a dominada, ao contrário de Euclides, que, ele mesmo, testemunha, de sua perspectiva de elite intelectual, o horror que foi cometido contra o arraial de Canudos naquele distante e próximo final do século XIX, tempo em que, talvez, também se passa o livro de João Guimarães Rosa.
           Eis aí a outra lição que o “Grande sertão: veredas” (1956) nos ensina: a escuta atenta do outro; alguém (não importa quem) mais estudado e pertencente à classe dominante escuta, com atenção, aquele relato de experiências e descobertas.
      Devagar e amorosamente, João Guimarães Rosa aponta um novo patamar da inteligência brasileira, quando dá à classe dominada a envergadura humana, diferentemente de Aluísio de Azevedo em “O cortiço” (1890). Aluísio não deixa de denunciar injustiça social e econômica, não há dúvidas. Porém o faz dizendo que a pobreza animaliza as pessoas e as torna diferentes das mais ricas.
         Não foi o que disse João Guimarães Rosa: Riobaldo é um homem, humano em tudo a que tem direito – ele pensa, analisa, escolhe, erra, elabora consequências, se reestrutura dentro de novas circunstâncias e relata tudo que aprendeu. Ele tem, portanto,todas as prerrogativas humanas, com os limites dele, é claro.
           O livro de Rosa, que ninguém lê, é uma resposta ao nosso tempo: ele é longo, muito longo; ele é a história de uma escuta muito, muito atenta; ele nos obriga a uma leitura vagarosa, já que é escrito numa língua tão, tão própria do autor que não permite velocidade na leitura... “Grande sertão: veredas” é um livro difícil, principalmente para nós, habitantes deste tempo não só rico e “conectado”, mas também apressado e simplificador. É um livro que nos desafia a visitar o que há de humano em nós – nossas imperfeições, nossos erros, nossa dificuldade de pedir perdão e de perdoar. O personagem Riobaldo tem coragem de admitir o que é: um cangaceiro que gosta do que faz; que sabe do lugar perigoso que ocupa (tão perto do Mal...); que, por conta dessa proximidade, é capaz de quedar... Mas que se remenda, como diz, e prossegue no trajeto possível.
          O “Grande sertão: veredas”, portanto, nos aconselha a não continuar seguindo sem nos escutar! Esses maravilhosos telefones precisam começar a servir a que vieram: para viabilizar melhor os nossos diálogos e nossas compreensões. E nossas tolerâncias. E nossos afetos.
         Em nenhum momento do livro, João Guimarães Rosa apresenta apenas uma perspectiva de olhar o mundo e a vida: ele reconhece as dificuldades; obriga a ir devagar; convida ao exercício difícil do silêncio para viabilizar escuta; oferece o desmantelo do fundamentalismo simplista, um dos caminhos desta modernidade cega em que vivemos. O Bem, diz ele, não pode ser perseguido de “incerto jeito”; fazer isso, completa, “pode já estar sendo se querendo o mal, por principiar”.Ele indica, numa narração labiríntica como a vida, que a estada material não é um mero exercício de compras, nem um aproveitamento sequenciado de prazeres. Ela é um embate: não é fácil ser pessoa.
          Todos somos como os cangaceiros de João Guimarães Rosa; a proximidade com o Mal sempre é uma ameaça contra a qual devemos lutar com todas as armas que temos (nossa Razão, nossa Arte, nossa Filosofia, nossos estudos de História, nossa difícil capacidade de Diálogo, nossos meios de comunicação...).
           Não podemos desistir da utopia de nos entender cada dia mais.
        Para isso é necessária a Palavra. A Palavra e suas circunstâncias inescapáveis: a expressão franca e verdadeira do Eu; a Escuta; a concordância ou discordância; o Respeito e, por isso, a Tolerância (Gandhi uma vez disse que não é preciso aceitar o que se tolera. Eu poderia enfatizar acrescentando que discordar não significa apagar, nem matar, nem desqualificar).
           Não é o que vejo: ninguém escuta ninguém (estamos tão fascinados com nossas maquininhas que elas viram brinquedinhos que não estão nos levando a lugar nenhum, como previu Drummond); só se lê a manchete de notícias curtíssimas (pois, dizemos, não temos tempo); só se escreve para impor “uma” versão, ou para obter resultados em concursos, dizendo o que deve ser dito (sei lá o que isso significa); ninguém quer fazer o esforço de ler mais, analisar mais, pensar mais e conseguir se expressar acrescentando novos horizontes, novas utopias...
       É como se estivéssemos abandonando o nosso posto de seres humanos, como diz Érico Veríssimo (de quem ninguém mais fala), num livro chamado “Solo de clarineta”. É como se abríssemos mão de nossas conquistas humanísticas, democráticas e constitucionais, as quais exigiram o sacrifício de tantos para que, neste tempo de hoje, vivêssemos e nos compreendêssemos melhor.
            É preciso reconhecer que as redes sociais (a parte que cabe a cada um de nós no latifúndio da comunicação) não estão cumprindo a melhora que se quer da grande mídia: nelas, continuamos sectários, intransigentes, intolerantes e violentos. E sua rapidez nos mantém desinformados, pois seguimos sem pensar, sem ler e sem criticar.Devemos ser a pluralidade que exigimos; está em cada um de nós a inabilidade de se colocar no lugar do outro; a incompetência de ler nas profundezas e devagar um texto e a preguiça de assumir o tutano triste de nossa condição. Erigimos um império de tolices, e contra isso ninguém se insurge; a mídia é criticada por motivos variados. Mas não vejo ninguém questionando programas bobos e, às vezes, absurdos de competição esportiva, culinária ou musical (inclusive com exposição de crianças em situações inaceitáveis de avaliação). Todo mundo assiste! E, enquanto todo mundo assiste, a mídia vai mostrar, porque ela vive disso. Sua ambiguidade desconcertante repousa num fio de faca: ela não só manipula, mas também diz o que queremos ouvir.
           Ninguém assume nada – sempre é o outro que é corrupto, mentiroso, errado, partidário. Isso pressupõe que “eu” nunca pratico nenhum ato ilícito, digo sempre a verdade e ajo, em todo caso, certo, com isenção e equilíbrio. A mídia está errada, o governo é omisso, todo político é corrupto, eu posso viver sem governo, sem Constituição, sem Leis... Sem nenhum projeto coletivo... É a ditadura fundamentalista do Eu, que meus alunos costumam atribuir ao capitalismo, não a si próprios, como se o capitalismo individualista existisse por si mesmo e não houvesse a contrapartida nossa de cada dia que o fortalece. A escola, dizem meus alunos, resolve tudo. Mas, nos entretantos do dia a dia, eles escolhem uma escola apenas funcional e, com telefones nas mãos, participam do jogo “só escuto o que quero escutar ou nem isso”. Pelo que entendo, uma escola reflete a sociedade em que está e pode mudar apenas a sociedade que escolha mudar.
             Vendo tevê, outro dia, ouvi uma moça que disse:
             − Não entendo nada, isso deve ser culpa da mídia!
           Fiquei impressionada com o fato de que ela não pensou: “Não estou entendendo, preciso ler mais”.
            Nessas redes sociais, somos todos jornalistas. E estamos achando que somos melhores do que “eles” (os jornalistas). “Todos eles” são vendidos, partidários e escondem interesses escusos. Solução? Matar ou agredir “todos” os jornalistas? Calá-los? Viver sem mídia? Travar as possibilidades de diálogo e se conformar com uma sociedade partida, em que cada lado só lê o que escreve? Como estamos nos informando? Não vemos tevê? Vemos o quê, na tevê? Estamos lendo? O quê?
        Na verdade, acho que não estamos lendo é nada. E a culpa de quem é? Da mídia? Dos jornalistas? Da tevê?
          No mesmo programa de tevê, vi um jornalista, trabalhando na rua, cobrindo manifestações, com medo, dizer:
             − Aqui eu não tenho condições de distorcer a realidade... Sou um trabalhador...
             Aonde vamos parar assim?
            Está faltando literatura... Nessa “mídia” também deveria estar colocado o texto que nos ajuda a fugir (porque verdade demais adoece e mata), a ver de outra perspectiva, a enxergar a trágica ontologia dos homens, a nos reconhecer como parte de uma aldeia chamada Humana, a criar laços, a montar novos sonhos e utopias... Grandes escritores (com licença da expressão), além de fotografar as incoerências de nossas sociedades, dão pistas sobre o que fazer com elas; oferecem-nos possibilidades de semear um futuro “que fala a nossa língua”, como diz Mia Couto. Apresentam-nos personagens por meio dos quais aprendemos a nos identificar com quem é diferente de nós e nos fazem parar – várias horas e vários dias – para olhar para nós mesmos e para (e com) o outro...
          Riobaldo faz isto: narra, reflete, olha-se, assume-se;em nenhum momento, se exime de ser parte do grupo a que pertence; ele não é um promotor da verdade: conta a sua história, passada num tempo em que não se começara a estruturar o Estado de Direito brasileiro, e não esconde nada do que fez e do que viu – grupos armados, julgamentos arbitrários, assassinatos, pilhagem, chefias escusas... Naquele ramerrão, embora motivado pelo Bem, ele escolheu o Mal: numa encruzilhada, aonde ele chegou com suas próprias pernas − ele assume –, comprometeu-se com o Cujo e (coisas da vida), assim pactuado, tomou a chefia do grupo que venceu o Mal da narrativa, o Hermógenes. “Natureza da gente não cabe em certeza nenhuma”, diz João Guimarães Rosa, que acrescenta, noutra passagem: “O bom da vida é para cavalo, que vê capim e come”.
“A perene, insuspeitada alegria de con-viver”, diz Drummond num poema sobre máquinas e homens, é uma descoberta que tem a ver com as nossas entranhas, ou seja, com a prospecção íntima possível de cada um, cada dia...  Não nos é possível abrir mão de nós mesmos, nem viver sem o outro...Talvez seja essa a encruzilhada em que estamos. Pensar não pode significar viver num tribunal de acusação, em que o outro está errado, e eu estou certo.
Ariano Suassuna tem um poema lindo que fala da natureza das flores, as quais vivem seu “termo delicado e concedido”, comparada à dos homens, que vivem à sombra e querem o sol; se estivéssemos tranquilos, ele nos ensina, estaríamos presos ao destino das coisas e das flores, que não podem.
Nosso desafio, portanto, é esse verbo intransitivo de difícil: precisamos continuar aprendendo a poder. Nada que já construímos pode ser jogado fora – o Estado de Direito, Leis, Constituição, Democracia são conquistas irrenunciáveis. Daí para frente, às cegas, precisamos ir juntos, procurando, pois, como diz João Guimarães Rosa, “a Liberdade ainda é um pobre caminhozinho, no dentro do ferro de grandes prisões. Tem uma verdade que se carece de aprender, do encoberto, e que ninguém não ensina; o bêco para a liberdade se fazer”. 

sexta-feira, fevereiro 12, 2016

A chave afundada

Como te chamas,
amor que não chega?

Não é amor
nem solidão
teu nome ignoto.

Talvez esperança
temperada com desejo –
essa chave em nós
afundada
que esboça
novas auroras
quando só há escuridão...

Como te chamas,
amor que não chega?

Não é necessidade
teu nome escuso.
Talvez carência,
esse afeto perdido
e não conjugado...

Por enquanto,
sou alegre,
não feliz:
minha vida inteira
suspensa...

Se não vieres depressa,
será tarde demais.
E teu nome,
amor que não chega,
restará inconcluso...

sexta-feira, janeiro 22, 2016

O relógio

O pêndulo avisa:
ora perdida
ora esperada,
minha vida passa
sozinha...

Não sozinha de razões
não sozinha de pessoas.

Meu sozinha,
amor que não chega,
é uma saudade
de ti.

quinta-feira, dezembro 10, 2015

Aos nossos alunos - 5

Drummond tem um soneto chamado “A ingaia ciência” em cuja primeira estrofe ele fala da madureza como um presente que nos tira o sabor. Ele não diz quem nos dá o presente, nem identifica que sabor nos é subtraído, usa o substantivo “prenda” – perigosamente próximo do verbo “prender” – e o verbo “raptar”, parecendo iniciar o texto com o argumento de que a maturidade é algo que rapta a juventude, a inocência e os sabores da vida.
Mas a segunda estrofe nos tira dessa confortável e já sabida definição e, num jogo lindo de palavras, nos desafia a pensar mais. Drummond repete a palavra “madureza”, que tinha ficado presa nas estruturas subordinadas da primeira estrofe, e recomeça uma frase, acrescentando que ela “vê o círculo vazio onde se estenda, e que o mundo converte numa cela”. Ele disse, portanto, que a madureza vê o vazio em que poderia se estender, já que o modo subjuntivo é o da possibilidade e da dúvida e não o da certeza, e acresce que é o mundo que faz dela uma cela. E não diz “ela é uma cela”.
Aí ele entra nos tercetos e diz pela terceira vez a palavra “madureza”, como se fosse de novo recomeçar a conceituar: a madureza não só sabe o preço de tudo (usa uma bela metonímia, pois não diz “tudo”, mas “amores, ócios e quebrantos”), mas ainda nada pode contra seu próprio saber e contra si mesma. E, na última frase, afirma, noutra metonímia linda, que o olfato e o olhar agudos e a mão, “livre de encantos, se destroem no sonho da existência”.
A estrutura “se destroem” pode ser lida como “são destruídos” ou como “se autodestroem”, e “sonho da existência” nem é agente da passiva, nem é objeto direto. É apenas uma circunstância. Pergunto: de tempo? De lugar? De modo? De condição? Há ainda, no texto, uma mão livre de encantos. Ou seja: Drummond pensa que os encantos são uma prisão. E que, portanto, a madureza é uma espécie de liberdade, uma janela pela qual se pode fugir dos encantos ou dos enganos do mundo.
Pois bem: esse poema, apesar da forma medieval do soneto, é moderno. O poeta não se pergunta mais quem nos prendeu na madureza –  se o destino, se Deus, se a ciência... Isso não importa mais.  A questão do homem moderno é outra:  é o que fazer com ela, com essa surpresa que não conseguíamos ter e que agora se nos apresenta. Duas expressões – “círculo vazio” e “surpresa da janela” – criam metáforas de saída, de ver além de; pode-se passar por um círculo vazio; não se pode passar por um preenchido. E, sem vendas, pode-se ver surpresas na janela, pode-se ver o novo, pode-se ver a complexidade de sentidos na qual vivemos. Nesse contexto, poderíamos, com as possibilidades e a força de nossa linguagem e dos nossos meios de comunicação, buscar entendimentos. Mas o que temos é mais meios e canais para expressar nossos preconceitos; o que temos é a desqualificação do ensino da língua; o que temos é a língua servindo para vender e não para entender, explicar, acatar, tolerar...
Diferentemente de Drummond, a maioria de nós (que hoje tanto vivemos) caiu na armadilha da simplificação e da falta de conteúdo. Nunca vivemos tanto, nunca tivemos tantos meios de comunicação tão eficientes e tão baratos... Neles nunca tivemos tantos caminhos e lugares de comunicação e de agregação... E nunca temos o que dizer que, realmente, faça progredir nossa tolerância e pluralizar nossos conceitos... Esses caminhos e lugares transformaram-se em armadilhas, torres de babel, labirintos, interdições... São caixas de ressonância de nós mesmos... Todos dizem ou a mesma coisa ou pensam dentro da lógica bipolar, ou seja, o que eu penso está certo; quem não pensa como eu está errado. Ninguém quer olhar através da janela, através do círculo vazio, todos ficam dentro das prisões do mundo, como diz Drummond.
É aqui que o poema de Drummond dialoga com Nietzsche, que pensava que se deve apagar, com crueldade, o que se torna velho em nós; e isso não conseguimos fazer. Nossos fabulosos meios de comunicação amplificam nossos preconceitos e intolerâncias. Ou apenas nos enviam mensagens de compras desnecessárias. Estamos todos presos dentro desse mundo não só infantil, falsamente fácil e feliz, mas também sem sentido.
Os efeitos discursivos do poema de Drummond que estamos analisando não estão na forma (pois o autor mantém a estrofação, a  métrica e a rima da tradição), mas na sintaxe, na pontuação e na sonoridade oclusiva e consonantal, que criam uma atmosfera desconcertante, como a dessa modernidade que tanto nos prometia e que nos ofertou um conjunto vazio de coisas sem sentido nenhum. Nunca fomos tão ricos, tão conectados, tão infelizes e tão sozinhos!
Minha madureza é um privilégio que poucos têm, sou como o deus Jano, que nos ajudou a dar nome a “janeiro”, o mês que tem uma face virada para o ano novo e outra virada para o velho: com uma de minhas faces, vi a madureza chegar devagar e depressa; diante da outra face estão os meus alunos aos quais posso falar.
Vocês estão começando a vida. Não caiam nessas armadilhas da simplificação, da repetição. A leitura literária é mais que um prazer simples que parece poder ser substituído por outro qualquer, como beber em excesso e escutar música tão alto, que não se pode conversar; é mais que a escrita da aventura, é mais que fuga, escapismo ou evasão. É uma experiência de entendimento do outro, de exploração da diversidade e da criação de possibilidades de se reconhecer no outro. Não há paz possível entre nós e em nós se não tivermos acesso a essa “mágica complementar”, como diz Contardo Caligaris, a qual nos proporcionou, ao longo de nossa História, não só ver de vários ângulos, mas também desenhar e redesenhar nossos horizontes e nossas utopias, democratizar a alfabetização e ampliar o acesso aos livros e, consequentemente, a novas e surpreendentes ideias e conceitos.
Esse mundo que nos aprisiona no hedonismo sem limite, que nos prende a sonhos individuais e materiais, que resume nossa escuta e nossa fala reflexiva, que só nos permite dizer o que já foi dito ou que nos faz dizer apenas o que deve ser dito não é bom.
Convido-os a ler, a pensar por si próprios, a ter coragem para negociar a sua diferença com a do outro, a parar para ver a si próprio, a aprender a estar consigo mesmo a fim de não se perder e, por fim, a construir sonhos coletivos...
A leitura literária é um ato de resistência a esse projeto perigoso de superficialidade, de uniformização e de futilidade por que estamos passando. Estamos sendo convidados a nos anestesiar com drogas de muitas espécies para não pensarmos em saídas, em perdões, em diálogos... Essa solidão estrutural que nos cerca... É porque estamos indo no caminho errado. Esse barulho que nos cerca... É porque não queremos ouvir o outro. Essa falta de conteúdo... É porque não estamos pensando por nós mesmos. Precisamos de um ajuste de rota.
No seu poema difícil, Drummond assinala a ciência triste da madureza. Eu não acho que minha ciência é triste, só difícil de escutar: o sentido da vida existe e está nas nossas relações, está no esforço do afeto, está na criação que cada um tenta fazer de sua própria utilidade; está, enfim, na tentativa de realização do sonho de seguirmos de mãos dadas, como Drummond disse em outro poema. No rumo de um mundo “sem a injustiça dos prêmios”, como disse Drummond em outro poema original. “Isso são utopias”, pode-se pensar. Mas minha última ciência é que é mortal abandoná-las.

quarta-feira, novembro 18, 2015

A partida

Quando os peguei
no berço dos braços
entendi
que cada amor
é amor.

De tão juntos,
nem antevi
partidas...

Em nós
modelou-se um lar
difícil
(como todos)
possível
(como poucos).

Agora
outras casas
são governadas
pelo estoque
já cumprido
de esforço.

Nossa ambígua
intimidade
ainda se revela
de repente
no curso inesgotável
da lembrança e
do sangue...
E se apura
com a regalia
das chegadas
inerentes!

Para meus filhos e minhas noras

domingo, outubro 11, 2015

Revolta

Meu destino
como todos
desanuncia
a trama
e o desfecho.

Essa espera cega
é uma tortura!


Mais revolta

Os amantes
não se fazem
na espera.

A modelagem
desse encontro
subjuntivo
daria a tudo
o sentido
agora vazio.

Não é demais,
destino meu,
depois de tanta privação,
manter cancelado
esse amor?

quinta-feira, setembro 17, 2015

Apresentando Raimundo Carrero - I

      Apresentar Raimundo Carrero é uma tarefa desnecessária: nós todos o conhecemos bem, ele é dos nossos. Mas é claro que se pode falar dele, para mais nos conhecermos uns aos outros. Como não posso deixar de ser a professora de literatura para jovens que sempre fui, me arvoro do direito de dar uma aula de literatura para começar a organizar as ideias. Acho que preciso começar falando do Regionalismo e suas “faces” na literatura brasileira, para iniciar pensando o que Carrero não é.
        Na verdade, o Regionalismo brasileiro nasceu romântico, fruto da necessidade de busca da identidade nacional, um longo e árduo percurso histórico ainda em curso, é claro. O processo colonial e todas as suas injunções criaram dificuldades inomináveis para o projeto de independência política e, consequentemente, cultural do país. Durante 300 anos, o país não passou de um apêndice de Portugal, que, aqui, detinha poder absoluto.
       Em 1822, uma série de episódios culminou com a Independência. No âmbito da cultura, coube ao Romantismo a tarefa de construir a correspondente independência cultural e, portanto, a consciência e o orgulho da nacionalidade. Nessa altura, o Brasil ainda tinha o "álibi" do processo colonial, ou seja, tudo o que havia de errado, aqui, devia-se à instalação, entre nós, desse pacto injusto e desfavorável: escravidão, atraso, dependência... Descortinava-se, então, no horizonte, um futuro grandioso – estávamos livres da “mala sem alça” que nos condenava ao negativismo e à vergonha do subdesenvolvimento.
       Nesse contexto, o Romantismo descreveu o Brasil de modo idealizado. Florestas virgens, praias de areias brancas, mares verdes como esmeraldas líquidas, fauna ímpar (araras, jandaias, onças...), clima bom, céu de anil... Nesse verdadeiro paraíso terreal, colocou-se um habitante forte, orgulhoso, perfeito, bonito, bom, heroico. É nesse berço que nasce o nosso Regionalismo, filho do escritor cearense José de Alencar.
       Nosso primeiro escritor de âmbito nacional, Alencar planejou sua obra, no sentido de construir um painel histórico-cultural do país. Ambientou livros nos séculos XVI, XVII, XVIII e no seu próprio tempo (primeira metade do século XIX), pois pretendeu descrever o país de cabo a rabo. Percorreu sua História, descreveu suas geografias, inventou o índio como herói necessário (o elemento que estava aqui antes de o português chegar; portanto, o mais genuíno brasileiro) e visitou as suas "sociologias". Foi no projeto dessa brasilidade que nasceu o seu Regionalismo, que mencionou tanto o sertão nordestino como os pampas gaúchos, dentro, é claro, desse mesmo diapasão idealizante – paisagem e homem são igualmente perfeitos.
      Nos caminhos abertos por ele, o carioca Alfredo Taunay, descrevendo o Centro-oeste, e o cearense Franklin Távora, o Nordeste, proporcionaram ao país uma visão de si mesmo, necessária à construção do conceito de pátria que nascia.
     Esse Regionalismo romântico não deixa de ser uma espécie de escapismo no tempo e no espaço; tem a ver com um desejo de compensação e fuga da realidade, típico do Romantismo, somado a uma necessidade de representação desse novo espaço social e político que se desenhava no Brasil – o país livre. Constrói-se pela supervalorização do pitoresco, da "cor local" (como diz a crítica). Ou seja: o Romantismo agrega à região valores, cores, sentimentos e qualidades que, na verdade, não lhe pertenciam, mas à cultura que nascia e precisava deles para crescer. Paralela à hipertrofia imagística e estilística, uma complacência com os aspectos negativos das respectivas regiões aparece, e somente é mostrado o seu lado positivo.
       O tiro pela culatra desse Regionalismo é que ele beira a xenofobia.