terça-feira, março 10, 2015

Guardando lugar no mês de março...

segunda-feira, fevereiro 02, 2015

Guardando lugar no mês de fevereiro...

quinta-feira, janeiro 22, 2015

Guardando lugar no mês de janeiro...

terça-feira, dezembro 02, 2014

Aos nossos alunos - 4

Todo ano me traz uma turma nova, e isso sempre me renovou: novos sonhos, novas esperanças costumavam amanhecer em mim forças e coragens que eu nem sabia que tinha. Há tanto tempo sou professora, que sabia de cor o que acontecia: inicialmente, meus alunos me estranhavam, achavam que eu era meio “louca”, depois começavam a chegar bilhetinhos, conversas, até choros, e engrenava um amor lindo entre mim e eles, desses que merecem uma palavra ou um abraço, quando há um encontro na rua, no banco, no supermercado, ou no consultório de um médico qualquer.
Tantos ex-alunos referiam como fui marcante para eles... E isso sempre foi um sentido na minha vida, uma força extra de que eu lançava mão quando me sentia cansada.
Devagar e depressa, essa sequência de gerações foi se fazendo uma corrente do bem – eu falava, era compreendida (não por todos, é claro; mas pela maioria) e minhas palavras tinham um tempero de valor que servia de referência ou ponto de partida. Isso tudo multiplicado pelo número de alunos que tive desaguava numa felicidade mansa que morava em mim e que me dava uma certeza clara de que tudo dava certo no final.
Mas essa corrente do bem foi enfraquecendo, sem que eu sentisse de imediato, e, nesse ano de 2014, ela por fim foi quebrada.
Comecei a ouvir que eu precisava “falar a língua do meu aluno”, que era preciso “dizer o que o aluno quer escutar”. Eu nunca tinha me preocupado com isso, sempre me ocupei de falar aquilo que eu achava que devia dizer, ou aquilo que meu aluno precisava ouvir; essa era minha responsabilidade, inclusive; fazia parte da tarefa de educar. Nunca medi palavras para dizer: “não está bom”, “precisa melhorar”, “foi insuficiente”, “está apenas regular”. Não sei precisar quando essa nova realidade se inaugurou. Meu coração está aqui dizendo que talvez tenha sido a partir de 2010, talvez, não sei ao certo...
Devagar e de repente, meu aluno começou a querer atalhos, a desejar aprender só o pedaço, como se o aprendizado e a compreensão de si e do mundo viessem por aí, como se fosse possível melhorar uma nota sem melhorar como pessoa... O ato de escrever deixou de ser uma autoexpressão para ser aquilo que o avaliador quer ouvir ou uma busca por meios que o enganem.
Nada é subjetivamente construído, o aluno quer receber tudo pronto, e a interdisciplinaridade passou a parecer uma piada de mau gosto. A aula de literatura virou um estorvo, e escrever, apenas uma estratégia de preenchimento de linhas.
As filas de empréstimos de livros na biblioteca minguaram, e os alunos agora acham que vão se safar sem saber ler e escrever de verdade, competências sociais que continuam imprescindíveis à inserção política e social, ou ferramentas para quem quer fazer a diferença, como se diz por aí.
Recentemente, recebi um texto muito triste de uma amiga o qual dizia que o mundo a que pertencemos morre antes de nós. Não quero crer que é isso que está acontecendo comigo, seria admitir que não vale a pena estar viva. Nem é isso assunto para se falar a jovens que estão apenas no começo de sua caminhada. Quero crer que estamos atravessando uma fase apenas que, do jeito como começou, vá passando, passando, até desaparecer. E que chegará de novo a fé no esforço certo.
Outro dia, quando denunciei que há vários tipos de introdução aceitáveis numa dissertação argumentativa, um aluno retrucou:
Diga logo a que serve para todos os textos!
Danou-se, eu pensei. E não pude conter o pensamento que levantou várias hipóteses: a de que esse aluno sempre aborda suas pretendentes de uma só forma, a de que ele usa apenas uma posição quando faz sexo, a de que ele sempre pede o mesmo prato no restaurante, a de que ele admite apenas uma forma de “certo”... E achei que ele caiu na armadilha da simplificação e da uniformização, perdendo o melhor da vida, das relações e das pessoas.
Pois elas são únicas, difíceis por serem únicas, surpreendentes e, por isso, ricas de si mesmas. Delas nascem textos múltiplos, diferentes, autorais (como nós, professoras de redação, os chamamos). E essa diversidade é uma nova lei, a lei da tolerância, a utopia da diferença que tanto lutamos para implantar.
              O que está acontecendo com vocês, alunos, que desistiram do caminho próprio, da roupa com personalidade, da escolha exclusiva, da construção subjetiva de sentidos? Onde já se viu aceitar por inteiro as ordens televisivas, partidárias, publicitárias, midiáticas?
              A vida não é uma tarefa fácil, ninguém vem de férias, todos têm que trabalhar muito e colecionar mais perdas que ganhos. Seu professor não chegou a sua vida para dizer-lhe o que você quer ouvir; ele está aí para mostrar rotas de melhora, para avisar que você está errado quando você está errado (e certo quando o caso é inverso). E “educação” não é formar e conduzir rebanhos. É fazer pessoas. Pessoas críticas. Capazes, inclusive, de analisar o professor e avaliá-lo com justiça.
              Por isso estou aqui hoje pedindo atenção. Atenção ao falso líder que só quer seguidores calados; atenção ao falso professor que não ensina a pensar e a seguir caminhos próprios, mas a burlar examinadores, por meio de atalhos; que diz que vai ensinar você a fazer uma prova. Atente para o fato de que você, devagar, tem que criar competências para a sua vida inteira. Uma escola, uma faculdade, uma universidade não são espaços onde você aprende a enganar e a fazer provas, mas onde você aprende a ser um sujeito capaz de escrever sua própria história.
              Eu poderia aqui ter dito que todos os sonhos de vocês se realizarão e que vocês serão felizes. Mas parece que faço o contrário: pernambucanamente, enfatizei o suor obrigatório no plantio e mesmo na colheita da cana para que, na sequência, vocês possam ter o açúcar.
              É claro que quero que vocês sejam felizes e que seus sonhos se realizem. Mas o que quero mais é vê-los autônomos, donos de si próprios, seguindo trilhas criativas e, portanto, tolerando a escolha diversa do outro. O que quero mais é vê-los enfrentar com originalidade os dilemas e desafios da vida, deixando marcas por onde passarem.

A Andressa, Douglas, Eduarda, Giovana, Rilk e Sérgio, metonímias dos meus alunos de 2014, dos quais tive que me despedir.

segunda-feira, novembro 17, 2014

Guardando lugar no mês de novembro...

terça-feira, outubro 28, 2014

Guardando lugar no mês de outubro...

segunda-feira, setembro 01, 2014

"A um poeta", de Olavo Bilac

          “A um poeta”, de Olavo Bilac, é uma das mais perfeitas realizações do Parnasianismo no Brasil – não só na forma mas também no conteúdo, esse texto atinge uma espécie de perfeita ortodoxia da escola.
          Na forma, o fato de a ideia ter sido exposta num soneto já diz muito do Parnasianismo. O soneto é uma estrofação de origem medieval que, ao longo da história da tradição ocidental, foi muito utilizada, por sua complexidade e por constituir sempre um desafio ao poeta, que tem de adaptar sua ideia a uma arrumação estrófica pré-existente (no caso, dois quartetos, seguidos de dois tercetos). O Parnasianismo não foi a única escola literária que o utilizou, mas, nesse período, o soneto foi tão importante que ficou a cara desse estilo.
           Observe-se que, além de ter escolhido o soneto, Bilac usou decassílabos, versos de dez sílabas poéticas, rimados com esquema também apriorístico: ABBA / BAAB / CDC / DCD.
        Há uma dificuldade adicional na rima: é que o poeta, nesse período, faz um esforço para aproximar palavras que pertençam a classes gramaticais diferentes. É o caso, por exemplo, de “rua” (substantivo), que rima com “sua” (verbo), ou “emprego” (substantivo), com “grego” (adjetivo).
            Ninguém hoje em dia se preocuparia em fazer poemas dentro de parâmetros formais tão rígidos, mas, durante a longa tradição ocidental, nascida ainda na Grécia antiga, até o final do século XIX, com ênfase no Parnasianismo, essas questões formais bem acabadas e rigorosas são condição “sine qua non” para se conferir a um texto o “status” de poético.
            Falamos da forma, vamos ao conteúdo: o eu-poético defende a impassibilidade como valor estilístico, ou seja, na sua opinião, o poeta deve ficar longe da rua, da vida, da História, pois tudo isso é “estéril”. E deve permanecer num “claustro”, como um monge “beneditino”. É o que os estudiosos chamam “torre de marfim” – em vez de se preocupar com a realidade circundante, o parnasiano se comprometia com a estrofação, a métrica, a rima e a seleção vocabular, isto é, não é qualquer palavra ou qualquer estrutura sintática que “merecia” entrar num poema parnasiano.
       Há uma clara posição antirromântica: no lugar da espontaneidade, da inspiração (valores típicos do Romantismo), o poeta dá preferência ao trabalho, à teima e ao suor; no lugar do idealismo, do platonismo e do espiritualismo, o poeta prioriza o concreto (“limar” o poema, que é comparado a uma fábrica, a um templo); no lugar da religiosidade romântica, o poeta aponta a cultura greco-latina ou clássica, que prima pela simplicidade, valor também defendido no poema.
           Costuma-se observar o Parnasianismo com um olhar moderno e seu esteticismo como postura inaceitável de “fazedor” de versos, mas ele trouxe temáticas novas, como a metalinguística, e o corte dos exageros estilísticos românticos que, no final do século XIX, já se esgotavam.
           Não podemos deixar de perceber que, mais tarde, por exemplo, em autores do próprio Modernismo (como João Cabral de Melo Neto), essa concisão linguística e essa metalinguagem parnasianas emergiram numa nova forma e se tornaram valores apreciáveis.