terça-feira, dezembro 02, 2014

Aos nossos alunos - 4

Todo ano me traz uma turma nova, e isso sempre me renovou: novos sonhos, novas esperanças costumavam amanhecer em mim forças e coragens que eu nem sabia que tinha. Há tanto tempo sou professora, que sabia de cor o que acontecia: inicialmente, meus alunos me estranhavam, achavam que eu era meio “louca”, depois começavam a chegar bilhetinhos, conversas, até choros, e engrenava um amor lindo entre mim e eles, desses que merecem uma palavra ou um abraço, quando há um encontro na rua, no banco, no supermercado, ou no consultório de um médico qualquer.
Tantos ex-alunos referiam como fui marcante para eles... E isso sempre foi um sentido na minha vida, uma força extra de que eu lançava mão quando me sentia cansada.
Devagar e depressa, essa sequência de gerações foi se fazendo uma corrente do bem – eu falava, era compreendida (não por todos, é claro; mas pela maioria) e minhas palavras tinham um tempero de valor que servia de referência ou ponto de partida. Isso tudo multiplicado pelo número de alunos que tive desaguava numa felicidade mansa que morava em mim e que me dava uma certeza clara de que tudo dava certo no final.
Mas essa corrente do bem foi enfraquecendo, sem que eu sentisse de imediato, e, nesse ano de 2014, ela por fim foi quebrada.
Comecei a ouvir que eu precisava “falar a língua do meu aluno”, que era preciso “dizer o que o aluno quer escutar”. Eu nunca tinha me preocupado com isso, sempre me ocupei de falar aquilo que eu achava que devia dizer, ou aquilo que meu aluno precisava ouvir; essa era minha responsabilidade, inclusive; fazia parte da tarefa de educar. Nunca medi palavras para dizer: “não está bom”, “precisa melhorar”, “foi insuficiente”, “está apenas regular”. Não sei precisar quando essa nova realidade se inaugurou. Meu coração está aqui dizendo que talvez tenha sido a partir de 2010, talvez, não sei ao certo...
Devagar e de repente, meu aluno começou a querer atalhos, a desejar aprender só o pedaço, como se o aprendizado e a compreensão de si e do mundo viessem por aí, como se fosse possível melhorar uma nota sem melhorar como pessoa... O ato de escrever deixou de ser uma autoexpressão para ser aquilo que o avaliador quer ouvir ou uma busca por meios que o enganem.
Nada é subjetivamente construído, o aluno quer receber tudo pronto, e a interdisciplinaridade passou a parecer uma piada de mau gosto. A aula de literatura virou um estorvo, e escrever, apenas uma estratégia de preenchimento de linhas.
As filas de empréstimos de livros na biblioteca minguaram, e os alunos agora acham que vão se safar sem saber ler e escrever de verdade, competências sociais que continuam imprescindíveis à inserção política e social, ou ferramentas para quem quer fazer a diferença, como se diz por aí.
Recentemente, recebi um texto muito triste de uma amiga o qual dizia que o mundo a que pertencemos morre antes de nós. Não quero crer que é isso que está acontecendo comigo, seria admitir que não vale a pena estar viva. Nem é isso assunto para se falar a jovens que estão apenas no começo de sua caminhada. Quero crer que estamos atravessando uma fase apenas que, do jeito como começou, vá passando, passando, até desaparecer. E que chegará de novo a fé no esforço certo.
Outro dia, quando denunciei que há vários tipos de introdução aceitáveis numa dissertação argumentativa, um aluno retrucou:
Diga logo a que serve para todos os textos!
Danou-se, eu pensei. E não pude conter o pensamento que levantou várias hipóteses: a de que esse aluno sempre aborda suas pretendentes de uma só forma, a de que ele usa apenas uma posição quando faz sexo, a de que ele sempre pede o mesmo prato no restaurante, a de que ele admite apenas uma forma de “certo”... E achei que ele caiu na armadilha da simplificação e da uniformização, perdendo o melhor da vida, das relações e das pessoas.
Pois elas são únicas, difíceis por serem únicas, surpreendentes e, por isso, ricas de si mesmas. Delas nascem textos múltiplos, diferentes, autorais (como nós, professoras de redação, os chamamos). E essa diversidade é uma nova lei, a lei da tolerância, a utopia da diferença que tanto lutamos para implantar.
              O que está acontecendo com vocês, alunos, que desistiram do caminho próprio, da roupa com personalidade, da escolha exclusiva, da construção subjetiva de sentidos? Onde já se viu aceitar por inteiro as ordens televisivas, partidárias, publicitárias, midiáticas?
              A vida não é uma tarefa fácil, ninguém vem de férias, todos têm que trabalhar muito e colecionar mais perdas que ganhos. Seu professor não chegou a sua vida para dizer-lhe o que você quer ouvir; ele está aí para mostrar rotas de melhora, para avisar que você está errado quando você está errado (e certo quando o caso é inverso). E “educação” não é formar e conduzir rebanhos. É fazer pessoas. Pessoas críticas. Capazes, inclusive, de analisar o professor e avaliá-lo com justiça.
              Por isso estou aqui hoje pedindo atenção. Atenção ao falso líder que só quer seguidores calados; atenção ao falso professor que não ensina a pensar e a seguir caminhos próprios, mas a burlar examinadores, por meio de atalhos; que diz que vai ensinar você a fazer uma prova. Atente para o fato de que você, devagar, tem que criar competências para a sua vida inteira. Uma escola, uma faculdade, uma universidade não são espaços onde você aprende a enganar e a fazer provas, mas onde você aprende a ser um sujeito capaz de escrever sua própria história.
              Eu poderia aqui ter dito que todos os sonhos de vocês se realizarão e que vocês serão felizes. Mas parece que faço o contrário: pernambucanamente, enfatizei o suor obrigatório no plantio e mesmo na colheita da cana para que, na sequência, vocês possam ter o açúcar.
              É claro que quero que vocês sejam felizes e que seus sonhos se realizem. Mas o que quero mais é vê-los autônomos, donos de si próprios, seguindo trilhas criativas e, portanto, tolerando a escolha diversa do outro. O que quero mais é vê-los enfrentar com originalidade os dilemas e desafios da vida, deixando marcas por onde passarem.

A Andressa, Douglas, Eduarda, Giovana, Rilk e Sérgio, metonímias dos meus alunos de 2014, dos quais tive que me despedir.

segunda-feira, novembro 17, 2014

Guardando lugar no mês de novembro...

terça-feira, outubro 28, 2014

Guardando lugar no mês de outubro...

segunda-feira, setembro 01, 2014

"A um poeta", de Olavo Bilac

          “A um poeta”, de Olavo Bilac, é uma das mais perfeitas realizações do Parnasianismo no Brasil – não só na forma mas também no conteúdo, esse texto atinge uma espécie de perfeita ortodoxia da escola.
          Na forma, o fato de a ideia ter sido exposta num soneto já diz muito do Parnasianismo. O soneto é uma estrofação de origem medieval que, ao longo da história da tradição ocidental, foi muito utilizada, por sua complexidade e por constituir sempre um desafio ao poeta, que tem de adaptar sua ideia a uma arrumação estrófica pré-existente (no caso, dois quartetos, seguidos de dois tercetos). O Parnasianismo não foi a única escola literária que o utilizou, mas, nesse período, o soneto foi tão importante que ficou a cara desse estilo.
           Observe-se que, além de ter escolhido o soneto, Bilac usou decassílabos, versos de dez sílabas poéticas, rimados com esquema também apriorístico: ABBA / BAAB / CDC / DCD.
        Há uma dificuldade adicional na rima: é que o poeta, nesse período, faz um esforço para aproximar palavras que pertençam a classes gramaticais diferentes. É o caso, por exemplo, de “rua” (substantivo), que rima com “sua” (verbo), ou “emprego” (substantivo), com “grego” (adjetivo).
            Ninguém hoje em dia se preocuparia em fazer poemas dentro de parâmetros formais tão rígidos, mas, durante a longa tradição ocidental, nascida ainda na Grécia antiga, até o final do século XIX, com ênfase no Parnasianismo, essas questões formais bem acabadas e rigorosas são condição “sine qua non” para se conferir a um texto o “status” de poético.
            Falamos da forma, vamos ao conteúdo: o eu-poético defende a impassibilidade como valor estilístico, ou seja, na sua opinião, o poeta deve ficar longe da rua, da vida, da História, pois tudo isso é “estéril”. E deve permanecer num “claustro”, como um monge “beneditino”. É o que os estudiosos chamam “torre de marfim” – em vez de se preocupar com a realidade circundante, o parnasiano se comprometia com a estrofação, a métrica, a rima e a seleção vocabular, isto é, não é qualquer palavra ou qualquer estrutura sintática que “merecia” entrar num poema parnasiano.
       Há uma clara posição antirromântica: no lugar da espontaneidade, da inspiração (valores típicos do Romantismo), o poeta dá preferência ao trabalho, à teima e ao suor; no lugar do idealismo, do platonismo e do espiritualismo, o poeta prioriza o concreto (“limar” o poema, que é comparado a uma fábrica, a um templo); no lugar da religiosidade romântica, o poeta aponta a cultura greco-latina ou clássica, que prima pela simplicidade, valor também defendido no poema.
           Costuma-se observar o Parnasianismo com um olhar moderno e seu esteticismo como postura inaceitável de “fazedor” de versos, mas ele trouxe temáticas novas, como a metalinguística, e o corte dos exageros estilísticos românticos que, no final do século XIX, já se esgotavam.
           Não podemos deixar de perceber que, mais tarde, por exemplo, em autores do próprio Modernismo (como João Cabral de Melo Neto), essa concisão linguística e essa metalinguagem parnasianas emergiram numa nova forma e se tornaram valores apreciáveis.

sábado, agosto 23, 2014

Último encontro

Limitaram teu corpo com cal e pedra,
quando ainda do teu seio brotava infância,
mas não te destruíram. E no espaço, além,
pelo fio das horas tu tecias
tua imagem, mais que verde, de esperança.

Esta imagem de mansinho se espalhou,
com força e mais bela, no meu sangue,
e nas tardes de outono, com teu nome,
distraía a primavera quase exangue.

Não se rendam jamais à pedra e à cal,
que argamassa se faz, cumprindo horrores.
Cantemos o outono e a primavera,
que são feitos de cantos e de amores.

Vês! que num peito, às vezes, comprimido,
entre algozes e angústias, brotam flores.
(Cyl Galindo)

E eu, que vivo atrelado ao desalento,
Também espero o fim do meu tormento,
Na voz da Morte a me bradar: descansa!
(Augusto dos Anjos)

            Em novembro passado, fui à casa de meu tio Ariano: ele se recuperava devagar dos enfartos e do AVC que o tinham vitimado alguns meses antes. Toda cheia de dedos, com medo de incomodá-lo, levei-lhe de presente os meus poemas que acabavam de ser publicados. Ele deve ter entendido o gesto: aquilo era o resumo do melhor que eu pude fazer com o que ele mesmo me deu.
            Não sei direito se consegui dizer a ele o quanto o amei; provavelmente não, que as palavras são sempre insuficientes para essas coisas do amor... Mas esse relato é uma tentativa de guardar e partilhar aquelas horas. E de dizer a ele o que faltou. Certamente, ele agora compreenderá.
            Ele estava deitado na cama, e eu sentei numa cadeira a seu lado, tentando tirar de dentro de mim a maior doçura já existida. Francamente, não sou capaz de relatar com objetividade o que se passou entre nós; lembro que ele falou de tia Zélia, sua esposa; disse que a achou linda desde que a viu pela primeira vez. Confessou que pensou em casar com ela naquele momento, mas imaginou que ela não ia querê-lo. Brincando, acrescentou que tinha tido um trunfo formidável na vida: ela tinha mau gosto... Continuou fazendo graça, dizendo que sua doença tinha dado a ele duas coisas boas: estava tendo vida de príncipe, pois todos o privilegiavam em tudo agora e obtivera a certeza de que iria morrer de repente e não de uma longa e dolorosa doença.
            Depois ele mesmo perguntou sobre a “nossa fazenda”, e eu contei a ele que eu, meu irmão Alberto e Joaquim, seu filho mais velho, tínhamos este patrimônio maravilhoso desde pequenos: ele se chamava “Três irmãos” e era a mais fantástica propriedade que se pode ter. Contei-lhe que passamos horas e horas de nossa infância e juventude planejando como ela seria. Até hoje, quando eu e Alberto vemos uma casa linda, sonhamos em deslocá-la de seu canto para a nossa fazenda, por meio de mirabolantes tratores, que a reposicionariam no alto de uma colina inenarrável de perfeita que existe nas nossas terras. Outro dia, Alberto falou com Renata, a namorada de meu filho Daniel, que é arquiteta, sobre a transferência, para a nossa fazenda, de um sobrado que existe não sei onde, e ela deu uma explicação sobre a falta de propriedade de tal empresa, pois uma fazenda tem espaço e, portanto, sua casa não precisa ser estreita como um sobrado, que pertence ao universo urbano. Alberto desconcertou-se:
– Será possível – ele disse – que uma pessoa não pode ficar sonhando que vem logo um e acorda?!
Ariano achou graça e entendeu perfeitamente por que nunca a compramos...
Mais ou menos por aí, contei-lhe uma história que aconteceu comigo e minha irmã Débora:
– Queria tanto poder me aposentar e ficar a vida toda só escrevendo... – eu disse, desanimada, um dia desses a ela.
Débora nada retrucou de volta. No dia seguinte, porém, quando nos encontramos, ela me disse:
– Ô, mulher, tu estás aprendendo com quem essa história de parar de trabalhar para escrever? É com tio Ariano, é?
Eu disse a ele que fiquei calada, pois não tinha o que dizer...
E tio Ariano exclamou:
– Ô, minha querida, desculpe pela maldição que te deixei...
            Eu fiz que “não” com a cabeça enquanto sorria.
Então, não sei bem em que momento, terminei por dizer a ele que “A pena e a lei” era minha peça preferida:
            – Ela não é tão fácil como o “Auto da Compadecida” – eu lhe disse – mas é mais profunda...
            E comecei a argumentar: que era linda a ideia de fazer os personagens parecerem bonecos quando, no primeiro ato, passavam pela vida material; e um pouco bonecos e um pouco pessoas, no segundo ato, quando se aproximavam da morte... E, por fim, no terceiro ato, quando morriam, viravam pessoas de verdade, pois, enfim, tinham encontrado sua verdadeira natureza...
            Quando terminei a minha justificativa, ele disse, humilde:
            – Obrigado, minha filha. Sua opinião tem valia...
            Eu tentei retribuir com um sorriso doce...
            Aí chegou a hora do almoço, e me despedi entregando-lhe o livro.
Depois daquele dia, não o vi mais; aliás, eu o via pouco. Sua herança é toda feita de livros, afetos e lonjuras, tudo guiado por mansa e respeitosa bússola, que trago tão bem guardada dentro de mim, que um dia, um aluno meu foi ver uma palestra de Ariano e me disse na volta:
– Você parece com ele por dentro e por fora...
“É mesmo”, eu reparei...
E resgatei, por meio de lembranças e relatos familiares, a importância dos tios, que fizeram as vezes do pai, quando foi preciso...
Meu tio Ariano foi, como meu pai, seu irmão querido, um homem afortunado, porém veio mais cheio de talentos. Isso costuma constituir um perigo – não para ele, que deu conta da inexequível equação dos talentos. Sua vida inteira foi um trajeto de aperfeiçoamento e de busca por respostas. De forma admirável, repartiu tudo que estudou e aprendeu: facilitava, por meio da graça, conceitos complexos e dava explicações compreensíveis para um número expressivo de ouvintes. Religioso, sempre escreveu sobre pecados, perdões e esperanças. É verdade que nos fazia rir de tudo isso. Mas, como alguns podem reparar, tirava o riso do desespero e da dúvida.
            Com a fé aflita que Ariano me ensinou, creio que a Compadecida o recebeu de braços abertos e o encaminhou ao lugar bonito do Céu – a fazenda dos irmãos – onde estão os justos que sofrem pelos outros, como ele... E onde se pode conversar com Deus, que explica todos os enigmas e sara todas as aflições...
E, com as palavras que ele mesmo me deu, posso afirmar: virou agora aquela pessoa de verdade e encontrou-se consigo mesmo e com sua própria essência, sem as dilacerações da vida material. E descansa, em paz, depois de uma vida completa, de choro e riso, suas raízes de defesa.
Certamente, continuaremos próximos, pois há rotas que vencem todas as distâncias. Tudo isso ele mesmo facilitou, pois conseguiu, com a ferramenta de seu trabalho bonito, como poucos, multiplicar os talentos que ganhou. Guardadas as proporções, agora é minha vez: sua maldição é só uma pluma...

domingo, julho 13, 2014

"Poderosa Afrodite", de Woody Allen

         “Poderosa Afrodite” é um filme do diretor Woody Allen, por quem tenho um sentimento dúbio: enquanto assisto a seus filmes, divirto-me a valer; mas costumo me esquecer das histórias, e isso não é um acontecimento comum na minha vida, pois me lembro perfeitamente de histórias que li quando era uma menina ainda.
            Quando alguém me pergunta se já assisti a tal filme de Woody Allen, eu respondo um “não sei” bem aguado e concluo que, inconscientemente, vingo-me dele esquecendo.
            Pois bem: revi “Poderosa Afrodite” recentemente e, além de constatar que tinha me esquecido de tudo, ri e chorei bastante – pelo menos meu esquecimento me traz a possibilidade de ver, pela primeira vez, sempre, os filmes de Woody Allen.
            Desta vez, a história é a de um casal que adota uma criança: Lenny, o pai, é jornalista esportivo e Amanda, a mãe, trabalha numa galeria de arte. O tema da adoção, diga-se de passagem, não é brinquedo na vida do diretor: uma de suas esposas adotou crianças, e a separação do casal se deu por um explosivo caso entre Woody Allen e uma de suas filhas (deixei o “suas” com proposital ambiguidade para explicar melhor). Que Woody Allen nos faça rir dessa tragédia é a cara dele...
            Na história, como o filho adotivo é muito sabido e muito bonito, Lenny resolve, sabe-se lá por quê, ir atrás da mãe do menino, na expectativa de encontrar uma bela e inteligente mulher. Mas, depois de roubar papéis confidenciais, o personagem termina por encontrar uma prostituta tão burra e incompetente que, apesar de linda, não consegue dar conta do seu “negócio”.
            Por amor ao filho, Lenny tenta reencaminhá-la a uma vida normal, direcionando suas escolhas, ajudando-a a resolver suas questões com o cafetão, enrolando o cômico e o dramático, como tão bem os personagens de Woody Allen sabem fazer.
           Surpreendentemente, no meio de tudo isso, surgem, do nada, música grega para turistas, heróis da mitologia, figuras da psicanálise e um hilário coro de tragédia grega que narra, opina, interfere, aconselha... seguido pela solução “deus ex machina”, desde sempre implausível, impossível e inexplicável, que resulta num final casual e surpreendente. Feito a vida e seus “Imponderáveis de Almeida”, nas palavras de Nelson Rodrigues.
           Na verdade, gosto de duas ideias desse filme. A primeira é a da loteria genética humana. Rubem Braga, uma vez, refletiu sobre ela numa crônica linda chamada “Imigração”, escrita num distante janeiro de 1952. Nesse texto, nosso Rubem comenta uma reportagem sobre a Ilha das Flores, para onde iam os imigrantes assim que chegavam ao Brasil. O jornalista que a escreveu discordava da política imigratória daquela época que aceitava inúteis, como músicos, bailarinas, cabeleireiras, costureiras, vendedores, em vez de agricultores e técnicos. Na crônica, Braga concorda com o jornalista, de início. Mas depois se perde nas próprias ideias e começa a apreciar as fotografias da reportagem, concluindo que o destino é insensato, que nós não vivemos apenas de alfaces e motores, que é preciso um monte de tudo para formar um mundo e que cada pessoa é uma trança inexplicável de heranças, taras, possibilidades, escolhas e milagres, algo assim... E que as redenções podem vir de um desqualificado anônimo, já que a fantástica loteria humana é imprevisível e, portanto, incompreensível... E tarôs e cartas não adiantam nada, infelizmente, eu acrescento...
            A segunda ideia que aprecio é a do amor, de que não se pode fugir e que é tão velho quanto nós, tanto que aparece nas tragédias gregas antigas, tão fortemente referidas no filme.
          Há dois triunfos na história – o amor (esse sentimento tão humano que faz o que fazemos: destrói e gera vidas) e a arte (essa ação também tão nossa que alimenta o amor e se alimenta dele).
              Não são triunfos completados, na realidade. Mas costumamos não desistir, seguindo adiante, às cegas, com as heranças...

terça-feira, junho 10, 2014

Outra ontologia

O que me dói
não é a falta
de ninguém.

Minha vida
sempre doeu
antes de ser
ferida
por essa solidão.

O que me dói
nem sei direito
o que é.

Talvez o que doa
em todos
exatamente:
é o que falta
naquele íntimo
recinto que fala
o que sou
sem articular
sequer
uma palavra.